O Que Falta às Autarquias Para Reter o Turista Mais do que Um Dia
O Algarve tem uma estada média de 3,58 noites, mas outras regiões vizinhas ficam bem atrás. Veja o que separa um concelho que retém o visitante de outro que o vê seguir viagem no mesmo dia.
Um turista que visita o Algarve fica, em média, 3,58 noites na região, um número consideravelmente acima da média nacional de 2,42 noites. [1] No Alentejo, a realidade é bem diferente: a estada média ronda apenas duas noites, ainda que cada visitante gaste, em média, cerca de 133 euros por dia. [2] São dois territórios vizinhos, com paisagens, gastronomia e património comparáveis em riqueza e potencial turístico, mas com capacidades muito distintas de reter o mesmo visitante além de uma visita rápida de fim de semana.
Em 2024, tanto o Algarve como o Alentejo registaram o crescimento turístico mais modesto entre todas as regiões portuguesas, com subidas de apenas 1,5% e 2,6% respetivamente. [1] Num país onde o turismo continua, no seu conjunto, a crescer de forma consistente ano após ano, ficar sistematicamente para trás neste indicador específico devia acender um sinal de alerta claro em qualquer gabinete autárquico responsável pelo desenvolvimento turístico local, muito antes de esse atraso se tornar visível nas contas do comércio e da restauração locais.
Uma noite a mais vale mais do que parece
É fácil subestimar, à primeira vista, o impacto económico real de conseguir que um único visitante fique apenas mais uma noite adicional num concelho. Essa noite extra não representa apenas o custo de uma estadia em alojamento local. Representa, tipicamente, mais uma refeição num restaurante da região, mais uma visita a um produtor local, mais uma compra num pequeno comércio, e uma probabilidade bastante mais alta de o visitante regressar numa próxima viagem ou recomendar o destino a familiares e amigos.
Multiplicado por milhares de visitantes ao longo de uma época turística inteira, o efeito acumulado de conseguir reter o turista por apenas mais uma noite pode representar, para um concelho de pequena ou média dimensão, uma das alavancas económicas mais poderosas e mais subestimadas de toda a política de turismo local, precisamente porque não depende de atrair mais visitantes novos, apenas de aproveitar melhor os que já decidiram visitar a região.
Porque é que o visitante ainda decide ir embora tão cedo
Um turista que decide passar apenas uma ou duas noites num destino raramente o faz porque não gostou do que encontrou. Fá-lo, com muito mais frequência, porque simplesmente não percebeu, a tempo, que havia razões suficientes para ficar mais tempo. Chega a um concelho a pensar em visitar um único ponto de interesse, cumpre esse objetivo em poucas horas, e segue viagem, sem nunca ter tido conhecimento claro de que existiam, a poucos minutos de distância, outras experiências igualmente válidas que poderiam ter justificado uma segunda ou terceira noite na região.
Este é, no fundo, um problema de comunicação e de sequenciamento da experiência, não de falta de oferta turística real. O Alentejo, por exemplo, já atrai um perfil de turista mais exigente, disposto a gastar mais por dia do que a média nacional, à procura precisamente de tranquilidade e autenticidade. [2] O desafio não é atrair este visitante, que já procura ativamente o que a região tem para oferecer. É convencê-lo, uma vez lá chegado, de que vale a pena ficar mais do que as duas noites que inicialmente tinha planeado.
O exemplo de um fim de semana quase perdido
Imagine uma família que reserva duas noites num concelho do interior algarvio para visitar um único ponto de interesse conhecido, talvez uma feira tradicional ou um monumento específico que viram numa fotografia partilhada online. Chegam na sexta-feira à tarde, visitam o que tinham planeado no sábado de manhã, e por volta do almoço já não sabem bem o que fazer com o resto do dia nem com a manhã de domingo antes do regresso. Perguntam na receção do alojamento, que sugere, de memória e sem grande convicção, dois ou três nomes de restaurantes locais.
Nunca chegam a saber que a quinze minutos de carro existe uma adega familiar que recebe visitas todos os sábados à tarde, nem que no domingo de manhã há um pequeno mercado de produtores locais que só acontece uma vez por mês, coincidindo, por puro acaso, exatamente com o fim de semana em que estão de visita à região. Se essa informação lhes tivesse chegado antes da viagem, ou mesmo já no local, talvez tivessem estendido a estadia para três noites em vez de duas, ou pelo menos regressado, meses depois, especificamente para viver essas duas experiências que desconheciam por completo.
Itinerários que se constroem sozinhos, e itinerários que precisam de ajuda
Em destinos turísticos maduros, com décadas de investimento coordenado, o próprio destino já apresenta ao visitante, de forma quase automática, um conjunto de sugestões que naturalmente estendem a duração da visita: um roteiro sugerido de três dias, uma combinação já testada de atividades complementares, informação cruzada entre diferentes atrações que se recomendam mutuamente. Em muitos concelhos do Algarve interior e do Alentejo, esta camada de organização simplesmente não existe, ou existe de forma tão fragmentada entre diferentes entidades que o visitante nunca chega a tomar conhecimento dela antes de decidir seguir viagem.
Isto significa que, na prática, cada concelho está a competir pela atenção do visitante com uma mão atada atrás das costas, deixando à sorte, ou à iniciativa individual e descoordenada de cada operador turístico local, aquilo que deveria ser uma estratégia deliberada e coordenada de retenção de visitantes ao longo de vários dias.
Há ainda um agravante digital a considerar: mesmo quando um concelho tem, de facto, um website oficial de turismo com informação sobre diferentes atrações, é comum essa informação estar organizada por categoria administrativa, como patrimônio, natureza ou gastronomia, em vez de organizada pela lógica que realmente interessa a quem visita, que é o tempo disponível e a sequência lógica de uma estadia de dois ou três dias. O visitante não pesquisa por categorias administrativas. Pesquisa por perguntas concretas: o que fazer no primeiro dia, o que fazer se chover, onde comer perto de determinado ponto de interesse. Sites organizados apenas por categoria raramente respondem bem a este tipo de pergunta prática.
Dados que já existem, mas raramente são usados
A maior parte dos municípios já tem acesso, através do Instituto Nacional de Estatística e de outras fontes regionais, a dados relativamente detalhados sobre o número de dormidas, a estada média e a origem geográfica dos visitantes na sua área. O que falta, com muita frequência, não é o dado em si, mas a análise ativa desse dado para perceber, com precisão, em que ponto da viagem o visitante médio decide que já viu o suficiente e está pronto para seguir para outro destino.
Cruzar esta informação estatística com entrevistas diretas a visitantes, a operadores turísticos locais e a unidades de alojamento permite construir um retrato muito mais preciso do que está a impedir estadias mais longas: pode ser falta de informação sobre atividades complementares, pode ser um problema real de transporte entre diferentes pontos de interesse, ou pode ser, simplesmente, a ausência de qualquer sugestão ativa de como preencher um segundo ou terceiro dia na região.
O papel que só uma autarquia pode desempenhar
Um produtor de vinho, um museu local ou uma unidade de alojamento individual raramente têm, sozinhos, a visão de conjunto nem o incentivo direto para coordenar uma estratégia de retenção de visitantes que beneficie todo o concelho. Cada um está, naturalmente, focado em otimizar o seu próprio negócio, não a experiência turística completa de quem visita a região.
É exatamente aqui que uma autarquia tem um papel que nenhuma outra entidade consegue substituir: a capacidade de olhar para o território como um todo, identificar como diferentes recursos e atrações podem complementar-se ao longo de uma estadia de vários dias, e comunicar essa proposta de forma coerente a quem está a planear a viagem, muito antes de o visitante sequer chegar ao concelho. Isto pode passar por algo tão simples como um itinerário sugerido de dois ou três dias, publicado de forma clara no site oficial do município, ligando diferentes produtores, monumentos e experiências locais numa sequência lógica e apelativa.
O calendário como ferramenta de retenção
Para além da sequência de atividades dentro de uma mesma visita, há um segundo eixo igualmente importante que a maior parte dos concelhos ainda não explora com intenção suficiente: o calendário de eventos e experiências sazonais que dão ao visitante uma razão concreta para regressar numa época diferente do ano. Uma colheita, uma festa tradicional, uma época de observação de aves numa reserva natural próxima, ou uma experiência gastronómica associada a um produto sazonal específico, são todas oportunidades de trazer o mesmo visitante de volta numa altura diferente, em vez de depender exclusivamente de atrair sempre visitantes novos.
Esta estratégia tem um valor adicional particularmente relevante para regiões como o Algarve e o Alentejo, ambas fortemente dependentes da época alta de verão: um calendário bem comunicado de experiências ao longo de todo o ano ajuda a distribuir a procura turística por mais meses, reduzindo a pressão excessiva sobre a época estival e criando receita mais estável durante o resto do ano.
Um calendário público e bem comunicado tem ainda outra vantagem menos óbvia: dá aos operadores turísticos locais, desde produtores a unidades de alojamento, um horizonte claro sobre quando podem esperar maior afluência, permitindo-lhes planear equipas, stocks e promoções com mais antecedência, em vez de reagir apenas à procura à medida que ela acontece de forma imprevisível.
Coordenar sem impor, comunicar sem sobrepor
Um receio comum entre autarquias que consideram avançar para este tipo de coordenação é o de parecerem estar a interferir na gestão de negócios privados ou de outras entidades gestoras de património. Mas coordenar uma comunicação conjunta não significa gerir esses negócios, significa apenas criar a ponte de informação que, hoje, não existe entre eles. Um produtor local continua livre para gerir o seu próprio negócio como entender. O que muda é que um visitante, ao pesquisar sobre o concelho, passa a encontrar todos estes recursos apresentados de forma coerente, em vez de dispersos por dezenas de páginas e perfis de redes sociais isolados, cada um a competir pela mesma atenção em vez de a partilhar.
Esta distinção entre coordenar e impor é frequentemente aquilo que separa iniciativas autárquicas bem-sucedidas de tentativas anteriores que geraram resistência entre operadores locais. Quando cada parte sente que ganha mais visibilidade e mais visitantes através da coordenação do que teria sozinha, a adesão tende a ser natural e voluntária, sem necessidade de qualquer imposição regulamentar.
De um dia para vários: o que está realmente em jogo
A diferença entre um concelho que retém o visitante por um único dia e outro que consegue transformar essa mesma visita em dois ou três dias inteiros não está, habitualmente, na qualidade dos recursos turísticos disponíveis. Está na forma como esses recursos são organizados, sequenciados e comunicados antes e durante a viagem do visitante. É uma diferença que qualquer autarquia tem capacidade real de influenciar, com investimento moderado e vontade política de coordenar diferentes atores locais em torno de uma estratégia comum.
A pergunta que fica para qualquer responsável pela área do turismo num concelho do Algarve interior ou do Alentejo é simples de formular, mesmo que a resposta exija algum trabalho de investigação para chegar com precisão: sabe quantas noites em média os visitantes do seu concelho decidem ficar, e sobretudo sabe porque decidem ir embora precisamente quando o fazem, em vez de ficar mais um dia?
É a partir dessa resposta, muitas vezes desconhecida até ser cuidadosamente investigada junto de visitantes reais e de operadores locais, que se constrói uma estratégia genuína de retenção, capaz de transformar uma simples paragem de um dia numa estadia de vários, com todo o valor económico adicional que isso representa para o concelho. É precisamente neste tipo de diagnóstico e planeamento estratégico que a SH1 apoia autarquias através da sua consultoria dedicada ao setor público.
Nenhuma destas mudanças exige, necessariamente, grandes investimentos em infraestrutura nova. Exige, sobretudo, disciplina de planeamento, vontade de coordenar diferentes atores locais em torno de um objetivo comum, e a humildade de reconhecer que talvez o concelho já tenha, hoje, tudo o que precisa para reter o visitante por mais tempo, faltando apenas a organização e a comunicação certas para que isso aconteça de forma consistente, visita após visita, em vez de acontecer apenas por sorte ocasional.
O seu concelho tem este problema à escala do território
A Consultoria a Poder Público da SH1 aplica este mesmo raciocínio a autarquias e entidades regionais: leitura de dados, trabalho de terreno e um roteiro de prioridades para reter o visitante mais um dia.
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